Matéria de capa do caderno de cultura da cidade sobre a peça:
http://www.jornalacidade.com.br/editorias/caderno-c/2012/07/16/grupo-de-sp-apresenta-espetaculo-sobre-a-trajetoria-de-caim.html
Segunda, 16 de Julho de 2012 - 20h57
Grupo de SP apresenta espetáculo sobre a trajetória de Caim
Baseada na obra de José Saramago e Nilton Bonder, peça busca analisar o homem contemporâneo
O primeiro homem a desafiar Deus tem sua história
contada de forma onírica no palco do Sesc Ribeirão. Com muita música e humor, o
espetáculo "Caim", da Companhia Estelar de Teatro, mostra a trajetória errante
desse que é um dos maiores mitos da sociedade ocidental.
De acordo com a Bíblia, Caim, filho de Adão, é
condenado pelo todo poderoso a vagar pela Terra depois de matar seu irmão Abel
por puro ciúmes.
Livremente inspirada na obra homônima de José
Saramago e em "A Alma Imoral", de Nilton Bonder, a peça escrita pela também
atriz Viviane Dias busca, através do mito, analisar a situação do homem
contemporâneo no mundo, entregue à sua própria sorte.
"Durante a nossa fase de pesquisa, esses livros
entraram no caldeirão. Os mitos nos interessam muito porque são um alimento para
explicar a nossa época", afirma Viviane, que também interpreta a personagem
Lilith na montagem.
De acordo com a tradição judaico-cristã, Lilith foi a
primeira mulher de Adão, mas, ao se recusar a ser dominada, foi expulsa do
Paraíso e substituída por Eva. "É um mito que pesquiso há muito tempo. Lilith é
a transgressão do feminino. O livro de Saramago propõe o encontro entre os dois
e resolvemos utilizar isso na peça", comenta a autora.
Ao mostrar Lilith como a "anima" de Caim [veja 2º
texto do alto, à direita], Viviane assume a influência da obra do psicanalista
Carl Jung. "Caim sai em busca dessa alma gêmea transgressora e, ao mesmo tempo,
de si mesmo", explica.
Símbolo
Para a companhia, a desobediência na peça é
analisada como uma atitude renovadora, vital ao rompimento de padrões
pré-estabelecidos. Caim, mais que um criminoso, seria o símbolo do novo homem,
que deixa a tradição de lado em busca das cidades, de sonhos e de vida. Nesse
sentido, o filho de Adão é comparado ao mito grego de Prometeu, aquele que
desejou conquistar para a humanidade um poder divino e, por isso, foi
castigado.
Para levar um tema tão abrangente ao palco, o grupo
une artes cênicas, dança e música. "Não é uma peça dramática, porque utilizamos
a metalinguagem e elementos do teatro popular", explica Viviane.
"Caim" estreou no Sesc Consolação, em São Paulo, em
maio deste ano, depois de oito meses de investigação diária. Depois de Ribeirão
Preto, o espetáculo só vai ser apresentado em setembro, no festival de teatro de
Penápolis.
Viviane conta que a obra foi o resultado de uma
série de experiências que os membros fundadores da companhia acumularam nos
últimos anos, em residências artísticas em países como Itália, Dinamarca,
Polônia e Índia.
Em 2008, ela e o diretor da peça, Ismar Rachmann,
chegaram a participar de um programa de intercâmbio com o grupo do teatro Odin,
comandado pelo diretor italiano Eugenio Barba, referência do teatro
contemporâneo que esteve em Ribeirão no ano passado.
"O ‘Terceiro Teatro’, criado por Eugenio Barba, é
algo que nos inspira muito", comenta a atriz e dramaturga, referindo-se ao
movimento inovador criado pelo italiano e que influenciou muitos grupos da
América Latina. "A busca por uma nova dramaturgia é algo que acabou acontecendo
em nosso processo de criação", conclui.