segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Estelar de Teatro volta em curta temporada com Caim - um diálogo entre o mito bíblico e o homem contemporâneo.

 

Caim , que reestreia 30 de novembro, aborda temas como a transgressão e a necessidade de rompimentos na busca de reinvenção do homem e de suas relações.
 

Caim é livremente inspirado na obra homônima de José Saramago, bem como nas reflexões de Nilton Bonder, sobre a tensão tradição e rompimento presentes em “A Alma Imoral”. A Estelar de Teatro propõe uma abordagem antropofágica e brasileira do mito de Caim e das referências citadas em seu espetáculo, um texto inédito, escrito pela dramaturga Viviane Dias, resultante da fricção com essas fontes de inspiração.

Teatro, dança e música (com dois músicos em cena o tempo inteiro - e uma multiplicidade de instrumentos - que passeiam do bumba-meu-boi, à música étnica ) são elementos usados pela peça para propor um diálogo entre o mito bíblico - o homem que mata seu irmão e recebe a sina de vagar pelo mundo, marcado por Deus - e o homem contemporâneo e suas marcas, buscando uma releitura de temas como a transgressão e o erro, como experiências fundamentais na reinvenção da experiência humana e das formas de interação.

A peça, que estreou no SESC Consolação em maio de 2012, com ingressos esgotados antes de metade da temporada e viajou por algumas cidades do interior de São Paulo, volta agora em curtíssima temporada no Espaço Redimunho de Teatro. Ela busca ainda digerir uma série de experiências que os membros fundadores da companhia acumularam nos últimos anos em importantes residências artísticas internacionais (desde a mais recente, em agosto neste ano, no México, em que o diretor da companhia e dramaturga e atriz foram convidados pelo diretor russo Jurij Aschitz para compor um grupo de artistas de vários países numa pós graduação no México)  passando por países como Itália, Dinamarca, Polônia e Índia, pesquisando teatro contemporâneo (detalhados abaixo, no texto sobre a companhia).

  

Caim é o primeiro transgressor, o primeiro errante em busca de uma terra fértil, o primeiro homem que lida com a necessidade de atirar-se no desconhecido visando uma nova possibilidade de vida. É o primeiro homem a retirar-se da presença de Deus e a partir, em infinita caminhada, em direção ao sol levante. É a aventura de alguém entregue a si mesmo, assumindo todos os riscos da existência e todas as consequências de seus atos.

Lilith é a primeira transgressora do mundo. A primeira mulher que se recusa a ser dominada e a participar das normas patriarcais. É a lua negra, uma imagem fascinante da Grande mãe, coberta de sangue e saliva, de sexualidade pulsante, que flerta com os impulsos do inconsciente e seu poder.  Um sonho apagado da memória do homem por séculos e séculos. Ambos, Caim e Lilith, foram demonizados, viraram tabu.

Um encontro possível entre Caim e Lilith? Um homem que diz sim à sua alma transgressora, assumindo os riscos de uma nova vida? Um sonho de filhos mutantes, menos preocupados em construir em volta de si novos Édens - estreitas moradas de segurança e comodismo - e se lançarem no mundo, corajosamente, descobrindo caminhos à medida em que a necessidade desejosa de percorrê-los assim possibilitasse.  Homens de braços abertos para o imprevisível, o novo, o movimento e o eterno devir? Um sonho de loucos, de artistas. Um jogo, uma brincadeira, uma comédia. Uma aspiração de homens contemporâneos pressionados entre dois mundos, um já insatisfatório e outro ainda não totalmente realizado.

O projeto Caim nasce da necessidade da companhia, de dialogar, através do mito, com a situação do homem contemporâneo no mundo, desenraizado, também entregue a si mesmo e em busca de plenitude, de possibilidades novas de vida, de relacionamentos, de arte, de interação com o seu meio-ambiente.

O espetáculo dialoga ainda com o mito de Caim como um germinador, não só de lavouras, mas também do novo homem, de cidades, de sonhos, de vida. Na tradição grega, de acordo com Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Caim pode ser comparado a Prometeu, que desejou conquistar para a humanidade um poder divino. “Tal como Prometeu, Caim é o símbolo do homem que reivindica sua parte na obra da criação”.

 

 

Sinopse 1

Uma abordagem antropofágica do mito de Caim, o homem que recebe uma marca de Deus e uma serie de outras marcas nos seus encontros na vida atravessando diferentes períodos históricos, narrada por um grupo de atores ambulantes.


O espetáculo


Linguagens que se misturam tão ao gosto do mimo marginal - artistas populares que desde tempos imemoriais vagavam pela Terra e presentes nas mais diversas culturas. O lírico, o cômico, a narrativa, a dança e a música, a festa estão presentes no nosso espetáculo. Uma peça lúdica. Uma abordagem antropofágica de um mito base de uma cultura. Nosso Caim é mestiço, abriga as mais diversas sementes dentro de si e as espalha num mundo a ser re-significado. Uma canibalização. Uma peça também mestiça, que não busca sentido único ou unidade. Mas se compraz na diversidade. Uma investigação de dramaturgia no texto e na cena que valorizam o processo e o devir mais do que imagens previamente definidas, dialogando com a visão de um homem inacabado, também em processo. Nosso Caim é mais aberto cada vez que se lança e se lança no mundo. Assim nossa peça, quando abandona as certezas do Éden, passando por estradas que ainda não se revelaram em meio ao deserto, torna-se cada vez mais parceira da poética do público, convidando-o a completar suas lacunas, a exercer sua capacidade criativa junto conosco. Um tempo e espaço “outro”, próprio de mimos. Nos inspirando em artistas que antes de nós já questionaram a realidade, fazemos coro: se é possível de ser imaginado pelo homem, é real. E talvez mais real que muitas realidades sem pé nem cabeça que aceitamos, covardes e resignados, com a pouca energia dos nossos sentidos tão acostumados a viver em distração.

Um teatro político se entendermos, como Lehmann, o político como maneira de usar os signos e não como conteúdo: “a política do teatro é uma política da percepção.”

 

A companhia

A Estelar de Teatro é uma companhia que existe desde 2006, dedicada à investigação do teatro contemporâneo e de uma nova dramaturgia que fuja do drama burguês, de fortes traços épicos e líricos, em diálogo antropofágico com narrativas míticas e com a visão de um homem inacabado, em permanente devir. No último ano, acrescentou à sua vocação a investigação de uma dramaturgia cênica, que floresça no trabalho dos atores e diretor, a partir de um intenso treinamento corporal e improvisações.

 

Em 2007, a Estelar estreou seu primeiro espetáculo, Alice. Em 2008, com o apoio do Programa de Difusão e Intercâmbio do Ministério da Cultura, seus membros fundadores vivenciaram um ano de residências artísticas internacionais em grupos de teatro contemporâneo europeus, em especial o Potlach, na Itália - braço do ISTA – com passagem também pelo Teatro Teatro Odin, na Dinamarca. De volta dessas experiências, estrearam Mestres do Jogo, em 2010.

Neste mesmo ano, o diretor Ismar Rachmann voltou ao teatro Potlach por mais um ano para continuidade de sua pesquisa artística. Paralelamente, a companhia iniciou uma investigação sobre mitologia afro-brasileira (com passagens de membros da companhia em residências artísticas na Índia e no Instituto Grotowski, na Polônia). Em agosto de 2011 o grupo se reuniu para a pesquisa da peça Caim, sem apoio público algum que aconteceu diariamente na Oficina Oswald de Andrade. Caim estreou em maio de 2012 no SESC Consolação, viajou para Ribeirão Preto e Ilha Solteira (pelo SESC) e Mogi das Cruzes.

Em agosto de 2012, Ismar Rachmann e Viviane Dias foram convidados pelo diretor russo Jurij ALschitz para uma pós-graduação criada e coordenada por ele na Universidade Autônoma do México e, marcados por estas experiências, a Estelar de Teatro já prepara seu novo espetáculo: Frida Kahlo, calor e frio.

 

 

Currículos

 

Viviane Dias é atriz, dramaturga e jornalista formada pela ECA-USP. Mestranda pela UNAM, Universidade Autônoma do México, em curso coordenado por Jurij Alschitz. Entre seus últimos espetáculos, além dos já citados Mestres do Jogo e Alice, (autora e atriz) com a Estelar de Teatro, destacam-se Em Alguma Margem, no Rio, direção de Jairo Mattos ( 2010, no SESC Paulista; 2002, no Ágora CDT) ( autora); Bexiga- Uma Bela Vista, escrito em parceria com Sérvulo Augusto e dirigido por Roberto Lage ( autora e atriz). Como atriz, participou ainda de laboratórios de pesquisa e residências artísticas internacionais com importantes encenadores contemporâneos como Juij Alschitz ( Laboratório Tchékhóv, no SESC Consolação, em 2011), A. Vasiliev ( Seminário no Instituo Grotowski, na Polônia), Eugenio Barba ( Odin Week e seminários do ISTA, na Dinamarca e Itália), Pino di Buduo (residência artística e espetáculos feitos no teatro Potlach como atriz) e A. Biswas ( residência artística com ex-colaborador de Grotowski, na India). É professora no curso de formação de atores do TUCA, artista orientadora no Projeto Ademar Guerra e no Teatro Vocacional da Prefeitura de S. Paulo.

 

Ismar Rachmann é ator e diretor formado pelo Indac e mestrando pela Universidade Autônoma do México, em curso coordenado pelo diretor russo Jurij Alschitz. Completou sua formação em residências artísticas internacionais em teatros como O Potlach (2 anos, na Itália, em que participou de seminários no âmbitos do ISTA, performances em diversos países europeus com o espetáculo Cidades Invisíveis, e participações em festivais como Festuge, o Festival de Eugenio Barba e do Odin , na Dinmarca, em 2011). Desde 2006, é o diretor da Estelar de Teatro, tendo dirigido os espetáculos Alice, Mestres do Jogo e Caim, todos com estreia no SESC Consolação.

 

Ficha Técnica

Caim

Tragicomédia

Duração: 80 minutos

De Viviane Dias

Direção Ismar Rachmann

Direção Musical: Nei Zigma

Músicos criadores: Gabriel Moreira e Nei Zigma.

Com: Estelar de Teatro – Viviane Dias, Márcio Maracajá, Jonatã Puente, Anderson Negreiro e Sandra Lessa.

Luz: Carol Pinzan

Figurinos : Márcio Maracajá e Jorge Feitosa

Cenário: Estelar de Teatro.

Fotos: Lívia Büchele

Arte gráfica: Alice Freire

Operador de luz: Carol Pinzan

Operador de som: Tania  Piffer

Quando: de 30 de novembro à 14 de dezembro.

Quintas e sextas 21h.

Onde: Espaço Redimunho de Teatro – Rua Álvaro de  Carvalho, 75- Centro. F: 31019645.

Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia).




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