Estelar de Teatro volta em curta temporada com Caim - um
diálogo entre o mito bíblico e o homem contemporâneo.
Caim
, que reestreia 30 de novembro, aborda temas como a transgressão e a
necessidade de rompimentos na busca de reinvenção do homem e de suas relações.
Caim
é livremente inspirado na obra homônima de José Saramago, bem como nas
reflexões de Nilton Bonder, sobre a tensão tradição e rompimento presentes em
“A Alma Imoral”. A Estelar de Teatro propõe uma abordagem antropofágica e
brasileira do mito de Caim e das referências citadas em seu espetáculo, um
texto inédito, escrito pela dramaturga Viviane Dias, resultante da fricção com
essas fontes de inspiração.
Teatro,
dança e música (com dois músicos em cena o tempo inteiro - e uma multiplicidade
de instrumentos - que passeiam do bumba-meu-boi, à música étnica ) são
elementos usados pela peça para propor um diálogo entre o mito bíblico - o
homem que mata seu irmão e recebe a sina de vagar pelo mundo, marcado por Deus
- e o homem contemporâneo e suas marcas, buscando uma releitura de temas como a
transgressão e o erro, como experiências fundamentais na reinvenção da
experiência humana e das formas de interação.
A peça, que estreou no SESC Consolação em
maio de 2012, com ingressos esgotados antes de metade da temporada e viajou por
algumas cidades do interior de São Paulo, volta agora em curtíssima temporada
no Espaço Redimunho de Teatro. Ela busca ainda digerir uma série de
experiências que os membros fundadores da companhia acumularam nos últimos anos
em importantes residências artísticas internacionais (desde a mais recente, em
agosto neste ano, no México, em que o diretor da companhia e dramaturga e atriz
foram convidados pelo diretor russo Jurij Aschitz para compor um grupo de
artistas de vários países numa pós graduação no México) passando por países como Itália, Dinamarca,
Polônia e Índia, pesquisando teatro contemporâneo (detalhados abaixo, no texto
sobre a companhia).
Caim é o primeiro transgressor, o primeiro
errante em busca de uma terra fértil, o primeiro homem que lida com a
necessidade de atirar-se no desconhecido visando uma nova possibilidade de
vida. É o primeiro homem a retirar-se da presença de Deus e a partir, em
infinita caminhada, em direção ao sol levante. É a aventura de alguém entregue
a si mesmo, assumindo todos os riscos da existência e todas as consequências de
seus atos.
Lilith é a primeira transgressora do
mundo. A primeira mulher que se recusa a ser dominada e a participar das normas
patriarcais. É a lua negra, uma imagem fascinante da Grande mãe, coberta de
sangue e saliva, de sexualidade pulsante, que flerta com os impulsos do
inconsciente e seu poder. Um sonho
apagado da memória do homem por séculos e séculos. Ambos, Caim e Lilith, foram
demonizados, viraram tabu.
Um encontro possível entre Caim e Lilith?
Um homem que diz sim à sua alma transgressora, assumindo os riscos de uma nova
vida? Um sonho de filhos mutantes, menos preocupados em construir em volta de
si novos Édens - estreitas moradas de segurança e comodismo - e se lançarem no
mundo, corajosamente, descobrindo caminhos à medida em que a necessidade
desejosa de percorrê-los assim possibilitasse.
Homens de braços abertos para o imprevisível, o novo, o movimento e o
eterno devir? Um sonho de loucos, de artistas. Um jogo, uma brincadeira, uma
comédia. Uma aspiração de homens contemporâneos pressionados entre dois mundos,
um já insatisfatório e outro ainda não totalmente realizado.
O
projeto Caim nasce da necessidade da companhia, de dialogar, através do mito, com
a situação do homem contemporâneo no mundo, desenraizado, também entregue a si
mesmo e em busca de plenitude, de possibilidades novas de vida, de
relacionamentos, de arte, de interação com o seu meio-ambiente.
O
espetáculo dialoga ainda com o mito de Caim como um germinador, não só de
lavouras, mas também do novo homem, de cidades, de sonhos, de vida. Na tradição
grega, de acordo com Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Caim pode ser comparado
a Prometeu, que desejou conquistar para a humanidade um poder divino. “Tal
como Prometeu, Caim é o símbolo do homem que reivindica sua parte na obra da
criação”.
Sinopse 1
Uma abordagem antropofágica do mito de
Caim, o homem que recebe uma marca de Deus e uma serie de outras marcas nos
seus encontros na vida atravessando diferentes períodos históricos, narrada por
um grupo de atores ambulantes.
O espetáculo
Linguagens que se misturam tão ao gosto do
mimo marginal - artistas populares que desde tempos imemoriais vagavam pela
Terra e presentes nas mais diversas culturas. O lírico, o cômico, a narrativa,
a dança e a música, a festa estão presentes no nosso espetáculo. Uma peça
lúdica. Uma abordagem antropofágica de
um mito base de uma cultura. Nosso Caim é mestiço, abriga as mais diversas
sementes dentro de si e as espalha num mundo a ser re-significado. Uma
canibalização. Uma peça também mestiça, que não busca sentido único ou unidade.
Mas se compraz na diversidade. Uma investigação de dramaturgia no texto e na
cena que valorizam o processo e o devir mais do que imagens previamente
definidas, dialogando com a visão de um homem inacabado, também em
processo. Nosso Caim é mais aberto cada vez que se lança e se lança no mundo.
Assim nossa peça, quando abandona as certezas do Éden, passando por estradas
que ainda não se revelaram em meio ao deserto, torna-se cada vez mais parceira
da poética do público, convidando-o a completar suas lacunas, a exercer sua
capacidade criativa junto conosco. Um tempo e espaço “outro”, próprio de mimos.
Nos inspirando em artistas que antes de nós já questionaram a realidade,
fazemos coro: se é possível de ser imaginado pelo homem, é real. E talvez mais
real que muitas realidades sem pé nem cabeça que aceitamos, covardes e
resignados, com a pouca energia dos nossos sentidos tão acostumados a viver em
distração.
Um teatro político se entendermos, como
Lehmann, o político como maneira de usar os signos e não como conteúdo: “a
política do teatro é uma política da percepção.”
A
companhia
A Estelar de Teatro é uma companhia que existe desde 2006,
dedicada à investigação do teatro contemporâneo e de uma nova dramaturgia
que fuja do drama burguês, de fortes traços épicos e líricos, em diálogo antropofágico
com narrativas míticas e com a visão de um homem inacabado, em permanente
devir. No último ano, acrescentou à sua vocação a investigação de uma
dramaturgia cênica, que floresça no trabalho dos atores e diretor, a partir de
um intenso treinamento corporal e improvisações.
Em 2007, a Estelar estreou seu primeiro
espetáculo, Alice. Em 2008, com o apoio do Programa de Difusão e Intercâmbio
do Ministério da Cultura, seus membros fundadores vivenciaram um ano de
residências artísticas internacionais em grupos de teatro contemporâneo
europeus, em especial o Potlach, na Itália - braço do ISTA – com passagem
também pelo Teatro Teatro Odin, na Dinamarca. De volta dessas experiências,
estrearam Mestres do Jogo, em 2010.
Neste mesmo ano, o diretor Ismar Rachmann
voltou ao teatro Potlach por mais um ano para continuidade de sua pesquisa
artística. Paralelamente, a companhia iniciou uma investigação sobre mitologia
afro-brasileira (com passagens de membros da companhia em residências
artísticas na Índia e no Instituto Grotowski, na Polônia). Em agosto de 2011 o
grupo se reuniu para a pesquisa da peça Caim, sem apoio público algum que
aconteceu diariamente na Oficina Oswald de Andrade. Caim estreou em maio de
2012 no SESC Consolação, viajou para Ribeirão Preto e Ilha Solteira (pelo SESC)
e Mogi das Cruzes.
Em agosto de 2012, Ismar Rachmann e
Viviane Dias foram convidados pelo diretor russo Jurij ALschitz para uma
pós-graduação criada e coordenada por ele na Universidade Autônoma do México e,
marcados por estas experiências, a
Estelar de Teatro já prepara seu novo espetáculo: Frida Kahlo, calor e frio.
Currículos
Viviane Dias é
atriz, dramaturga e jornalista formada pela ECA-USP. Mestranda pela UNAM,
Universidade Autônoma do México, em curso coordenado por Jurij Alschitz. Entre
seus últimos espetáculos, além dos já citados Mestres do Jogo e Alice, (autora
e atriz) com a Estelar de Teatro, destacam-se Em Alguma Margem, no Rio, direção
de Jairo Mattos ( 2010, no SESC Paulista; 2002, no Ágora CDT) ( autora);
Bexiga- Uma Bela Vista, escrito em parceria com Sérvulo Augusto e dirigido por
Roberto Lage ( autora e atriz). Como atriz, participou ainda de laboratórios de
pesquisa e residências artísticas internacionais com importantes encenadores
contemporâneos como Juij Alschitz ( Laboratório Tchékhóv, no SESC Consolação,
em 2011), A. Vasiliev ( Seminário no Instituo Grotowski, na Polônia), Eugenio
Barba ( Odin Week e seminários do ISTA, na Dinamarca e Itália), Pino di Buduo
(residência artística e espetáculos feitos no teatro Potlach como atriz) e A.
Biswas ( residência artística com ex-colaborador de Grotowski, na India). É
professora no curso de formação de atores do TUCA, artista orientadora no
Projeto Ademar Guerra e no Teatro Vocacional da Prefeitura de S. Paulo.
Ismar Rachmann
é ator e diretor formado pelo Indac e mestrando pela Universidade Autônoma do
México, em curso coordenado pelo diretor russo Jurij Alschitz. Completou sua
formação em residências artísticas internacionais em teatros como O Potlach (2
anos, na Itália, em que participou de seminários no âmbitos do ISTA,
performances em diversos países europeus com o espetáculo Cidades Invisíveis, e
participações em festivais como Festuge, o Festival de Eugenio Barba e do Odin
, na Dinmarca, em 2011). Desde 2006, é o diretor da Estelar de Teatro, tendo
dirigido os espetáculos Alice, Mestres do Jogo e Caim, todos com estreia no
SESC Consolação.
Ficha Técnica
Caim
Tragicomédia
Duração: 80 minutos
De Viviane Dias
Direção Ismar Rachmann
Direção
Musical: Nei Zigma
Músicos
criadores: Gabriel Moreira e Nei Zigma.
Com: Estelar de Teatro – Viviane Dias,
Márcio Maracajá, Jonatã Puente, Anderson Negreiro e Sandra Lessa.
Luz: Carol Pinzan
Figurinos : Márcio Maracajá e Jorge
Feitosa
Cenário:
Estelar de Teatro.
Fotos:
Lívia Büchele
Arte
gráfica: Alice Freire
Operador
de luz: Carol Pinzan
Operador
de som: Tania Piffer
Quando:
de 30 de novembro à 14 de dezembro.
Quintas
e sextas 21h.
Onde:
Espaço Redimunho de Teatro – Rua Álvaro de
Carvalho, 75- Centro. F: 31019645.
Ingressos:
R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia).
Nosso site:
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário